bunker

Danny Wormwood

Depois do sucesso de Preacher o roteirista Garth Ennis não conseguiu realizar algo que fosse tão contundente ou bom quanto para os olhos do grande público, fez minisséries abusando do tom debochado que tanto cultivou nas páginas de sua criação mais famosa e aqui e ali conseguiu escrever algo diferente mas sem chegar perto do prestígio de outrora. Dias atrás terminei de ler Chronicles of Woormwood, seu último trabalho que chegou a ganhar um certo burburinho na ocasião de lançamento.

É o tipo de história que só poderia ser escrita por… Garth Ennis. Danny Wormwood é o anti-cristo - o filho do demo, do cão - um playboy cínico que não liga pra essa coisa de armageddon, prefere deixar a humanidade decidir seu destino sem interferir, mora em New York e comanda um canal de TV a cabo nos moldes da Showtime. Pronto, aí você tem quase todos os temas favoritos de Ennis só faltando mesmo o western: religião, discursos inflamados, liberdade de expressão e inferno. Não é exatamente uma coisa nova, convenhamos.

A vantagem é que mesmo sem nada de novo a leitura é rápida, engraçada e os diálogos longos de Ennis estão mais lapidados e ainda rendem boas citações aqui e ali. As bizarrices de sempre estão presentes, o melhor amigo de Danny o próprio Jesus Cristo (apesar de um pouco diferente do que estamos acostumados) e o papa, bem, é mais divertido se vocês verem o papa por si mesmos.

Uma minissérie divertida pra passar o tempo sem grandes arroubos de genialidade ou inovações estilísticas. A arte de Jacen Burrows é um pouco protocolar nas formas e enquandramentos abusando de planos abertos, o que dá mais espaço pros enormes diálogos de Ennis e fica só nisso. Chronicles of Wormwood tem seis números publicados pela Avatar Press que fecham um arco e é recomendado para fãs de Ennis ou qualquer um que simpatize com sátiras a igreja e religiões entre outras coisas.

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Fragmentos

20.09.2007 | Internas, Nerdices

fell

Às vezes tenho vontade de postar aqui uma ou outra passagem de algum quadrinho que li e por certas limitações como tamanho da imagem ou layout acabo não fazendo. Criei o FRAG! (sou horrível com nomes) para acabar com esse ”problema” de não ter onde colocar pedaços de histórias em quadrinhos que achei interessante. Movido a Wordpress (claro) e Flickr, encontrei um modo bacana de postar imagens grandes sem destruir minha banda e extravasar meu lado nerd de colecionar referências.

Pode colocar nos bookmarks.

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Tempos atrás o meu PC ficou no prego e aumentou o tempo livre pra ler algumas coisas atrasadas, se é que isso pode existir, você “atrasar” uma leitura de algo que você mesmo escolheu ler quando desse. De qualquer forma é algo que acontece bastante comigo, todo mês acumulam aqui no sofá ao lado da mesa do PC onde ficam as leituras do mês, os livros novos, os quadrinhos de luxo ($$) da Conrad e outras publicações adquiridas entre uma banca aqui e uma livraria ali até que a pilha fica tão grande que movo o excesso para a pilha dos “para ler um dia” que fica ano pé da mesa do telefone. E assim vai pela casa inteira. Ali dentro do quarto só entra o que já foi lido e devidamente degustado. Mas divago. Eu ia falar de Alias, que estava numa das pilhas.

Alias é a história de Jessica Jones, que um dia já foi super-heroína de colant colorido e um nome ridículo que não me vem à cabeça agora. Por conta de uma série de eventos traumatizantes, Jessica larga a vida de defensora do bem e aposenta as roupas apertadas. Abre uma agência de detetives onde é a única empregada e decide passar longe do mainstream superheroístico. Para Jessica é melhor ficar longe do seu passado. Arrisco logo dizer que Jessica é uma das melhores personagens que já conheci em histórias em quadrinhos. Culpa do roteirista Brian Michael Bendis que em seus famosos longos diálogos permite que o personagem realmente se densenvolva e ganhe novos contornos a cada edição sem ficar chato ou pretensioso demais, você acaba simpatizando com Jessica sem perceber. Um dos diálogos que mais é o de Jessica com um terapeuta na edição #9, até reproduziria aqui, mas ficaria fora de contexto e um tanto sem graça.

Jessica é extremamente atormentada pelo seu passado e vive num estado que varia entre depressão e fúria (rendendo até uma cena quase-histórica com o super-herói de aluguel Luke Cage logo na primeira edição) e você ali lendo acaba sendo levado junto com ela por entre esses estados sem entender muito bem porque ela sente-se assim até entender melhor as coisas no final da série. Se já é angustiante pra nós, quem dirá pra ela. Sem querer, ou talvez não, Bendis escreveu uma das mais adultas histórias em quadrinhos (no sentido de matura e desenvolvida) que existem sem passar muito do limite do universo de super heróis coloridos. Um grande feito se comparada com outras tentativas de outros títulos.

Publicada entre 2001 e 2004 pelo selo Max da Marvel, que abriga as publicações ditas adultas da editora a série teve originalmente 28 volumes que a Panini lançou por aqui na revista mensal Marvel Max até o número 22 e depois completou com um especial chamado “Névoa Púrpura”. Quem ilustra é Michel Gaydos, que encontra o clima certo para o roteiro de Bendis misturando traços pesados com ambientação assim por dizer, indie - coisa que quase no final da série é até ironizada. Na época que comprei Alias não li tudo, e mesmo que tivesse muita coisa teria passado em branco. Por essas e outras que quando aquela vontade de reler algo bate poucas vezes resisto.

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Mr. Nemo Nox

10.09.2007 | Nerdices

Entrei no Baltimore Convention Center, comecei a olhar as revistas expostas, e logo ouvi um comentário vindo do meu lado direito: “That’s a beautiful shirt!” Virei-me e dei de cara com ninguém menos que o Steve Niles, criador de 30 Days of Night, elogiando minha camisa com o Edgar Allan Poe.

Além de ser um dos melhores blogueiros em atividade que escreve um português, Nemo Nox possui a manha suprema de ir numa comic-con e bater um papo com gente como Steve Niles, Mike Mignola e Sergio Aragonés para o desespero do nerd aqui. Inveja é fogo.

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Bat Boot

05.09.2007 | Nerdices

Não tem nada ver mas o Batman deve deixar umas pegadas estilosas na neve. Nada muito sutil para o maior detetive dos quadrinhos. Cortesia de Batman #668 do mês passado, escrita por Grant Morrison e ilustrada por  J. H. Williams III.

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Watchmen

Alguns posters que vi recentemente me chamaram a atenção, começando com a loucura pop que será I’m Not There brincando com o clássico vídeo de Dylan, passando pelo interessante Eastern Promises, de David Cronenberg, que parece ser casca grossa e continua na mesma linha de A History of Violence (que por sinal tinha uns posters feinhos). Tem também We Own The Night, policial com Walhberg e Phoenix que homenageia os cartazes econômicos e representativos da década de 70 e o dark Sweeney Todd de Tim Burton, que deve fazer escola (mais uma vez). Na tv, o teaser da sensacional Dexter é o mais legal da temporada.

O prêmio de pior fica com Death Sentence, que na cara dura pinta Kevin Bacon como se fosse Mickey Rourke nos cartazes de Sin City, nem ao menos pra imitar um filme bom. Ah, e a imagem ali em cima é do primeiro poster de Watchmen. Snyder resolveu não brincar com fogo e não inovou em nada, ainda.

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Continuando a minha rampage de leitura de quadrinhos dos últimos tempos cheguei em Kill your boyfriend, de Grant Morrison e Philip Bond. Plot bastante simples: garota conhece garoto e os dois misturam a vontade de conhecer o mundo de um e a filosofia anárquica do outro e saem pela Inglaterra fazendo o que querem, incluindo matar o namorado da garota. “Shake a person up enough and what they thought was a personality starts to separate. We can be anything.

O tom subversivo do texto de Morrison guia o leitor rapidamente pelas sessenta páginas da Hq que assemelha-se bastante com a história de Mickey e Mallory Knox, os assassinos daquele filme de Oliver Stone. Entre questionamentos juvenis (”I bet Plato didn’t ever suspect he’d stop me watching Top of the Pops.”) e diálogos sobre a liberdade sem lei (”We believe the only true art objects are the gun and the bomb.”), Morrison não perde tempo para criticar o que puder, de política a arte e fez uma história que acabou virando referência para diálogos pop em quadrinhos. Divertido, instigante e diferente de grande parte do que se vê por aí, mesmo tendo sido publicada em 1995, o título é um pequeno clássico na carreira do roteirista.

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Planetary é o que pode-se chamar de épico dos quadrinhos modernos. Warren Ellis e John Cassaday misturaram física quântica, pulps, cinema japonês e sabe-se lá o que mais de referências numa história original e que reverencia grandes ícones da cultura pop do século passado. Parece que antes do século passado terminar Ellis resolveu escrever sobre (quase) tudo que considera indispensável na cultura pop.

Numa de minhas histórias favoritas (publicada em Planetary #13), que se passa num flashback no começo do século XX, o protagonista Elijah Snow encontra dentro de um castelo na alemanha o mapa para a central da Conspiração, uma organização de pessoas excepcionais que se juntaram para ajudar a humanidade e que guardam segredos de um século inteiro de atividades.

Até aí tudo bem, porém o castelo não é apenas um lugar normal, é claramente o mesmo lugar onde um certo doutor fez experimentos científicos que resultaram em Frankenstein e a “Conspiração” nada mais é do que o grupo outrora conhecido como Liga Extraordinária, escrita por Alan Moore (outra obra que também utiliza diversas referências para criar algo absurdamente excelente) e chefiada pelo detetive Sherlock Holmes. O próprio.

O encontro de Snow e Holmes é sem dúvida uma das melhores cenas já feitas em quadrinhos, e isso não é palavra de quem cada vez mais admira o trabalho de Warren Ellis, falo aqui como quem cresceu lendo as histórias do detetive da baker street. Em 2006 a Wizard colocou a história em seu ranking “The 100 Best Single Issues Since You Were Born” na posição 20. Atualmente a Pixel publica as histórias de Planetary na revista mensal Pixel Magazine.

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Retirado de Hellblazer #141

Foi publicado ontem no Sedentário um email de Artur Tavares, sócio-diretor da HQ Maniacs, que além de site é editora de quadrinhos com alguns títulos como Walking Dead e Estranhos no Paraíso no catálogo. Tavares comenta sobre a os scans de histórias em quadrinhos. Mas não é um email padrão que se espera de um editor, que seria algo como “tirem esses scans do seu blog ou senão eu entrarei na justiça contra vocês, seus pirateadores!”.

Tavares compreende o cenário atual e não condena os scans.  Ao invés de apontar o dedo e bradar contra os pirateadores Tavares vê o scan como um aliado na divulgação pois sabe que uma grande parcela dos leitores de quadrinhos não é adepto de ler no monitor e vai comparar o título em banca. O recente boom do mercado de HQs aqui no Brasil que começou ano passado está aí para mostrar isso. Tavares apenas pede que algumas boas práticas sejam tomadas pelos grupos de scanners (as pessoas que fazem a digitalização das revistas) como incentivar a compra de títulos que tem distribuição nacional colocando avisos nos próprios scans.

Alguns grupos como o Vertigem - que participo como tradutor - fazem isso por padrão em suas edições. Sou leitor de scans há um bom tempo porque a maioria do que leio nunca foi lançado aqui e dificilmente será. No entanto tudo que chegou nas bancas acabei comprando por ser fã  e grande parte dos leitores de quadrinhos que baixam scans fazem o mesmo, ter a revista em mãos é outra coisa. Faço traduções por hobby - como todo nerd gosto de espalhar as coisas que aprecio pra o maior número de pessoas possíveis - e sempre procurarei títulos para divulgar e esperar que sejam publicados por aqui.

Grande parte das editoras de HQs dos Estados Unidos já se pronunciaram sobre os scans e de forma bastante diferente do que aconteceu na época (para exemplo de comparação) do Mp3 e trataram a prática sem ações autoritárias que reultam geralmente em tiros no pé, não teve Lars Ulrich caçando “baixadores ilegais”. Os Editores da Marvel e DC nos Estados Unidos, respectivamente Joe Quesada e Dan Didio, já disseram que o scan não influencia na venda de seus títulos. Aqui no Brasil a discussão está no começo e com ações como a de Tavares parece que o resultado não vai ser tão ruim.

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Manji

Há um bom tempo namorava as edições nacionais de Mugen no Juunin, conhecida por estas bandas como Blade - a Lâmina do Imortal, lançadas pelada Conrad. Na época do lançamento em bancas deixei passar e só quando o mangá já estava bastante adiantando que fui saber qual era a (alta) qualidade do material. Recentemente tive a oportunidade de comprar 34 das 38 edições lançadas numa tacada só e passar um bom punhado de dias lendo a saga de Manji, o Hyakunin-Guiri (traduzido literalmente como “assassino de cem pessoas”).

Manji é um ronin que assassinou seu superior quando descobriu que cometeu mortes não porque as pessoas não pagavam os impostos, mas sim por não conseguirem pagar as altas quantias exigidas pelo seu suserano que desviava dinheiro. Durante sua fuga assassinou 99 samurais que lhe perseguiram, ganhando então o nome de Hyakunin-Guiri. Tornou-se imortal quando uma sarcedotisa chamada Yaobikuni cuidou de seu corpo debilitado pela batalha come “Kessen-Chu”, vermes simpáticos que curam qualquer ferida em seu corpo instantaneamente. Dessa forma Manji é um um ronin amaldiçoado ao não-morrer e com o peso das mortes cometidas para carregar - morrer para ele será um alívio agora e faz um trato com a Yaobikuni com a condição de que se matar mil pessoas más os vermes serão retirados de seu corpo.

Apesar de plot soar um tanto quanto violento e de fato o mangá ser tão bom em grande parte por conta dos duelos, o roteirista e ilustrador Hiroaki Samura não conta apenas uma história de ronins e samurais de forma tradicional no estilo “encontrar o mais forte e matá-lo em combate sangrento”. Além dos duelos a trama caminha com diálogos bem construídos que questionam o período político e cultural vivido no Japão e subvertem o tão precioso código de conduta dos samurais, o Bushido. Samura inclui vários elementos estranhos a um japão feudal na história, como personagens de nome Jony Uofutsu e Kuroi Sabato, respectivamente Jonny Rotten e Black Sabbath e alguns personagens falam girías e de forma bastante atual enquanto outros são tradicionalmente samurais feudais. Com esse choque da cultura pop moderna com o tradicional que ele transforma o mangá em algo mais do que apenas uma história de violência.

Os traços de lápis (ou ora com páginas finalizadas em nanquim) de Samura são rápidos e detalhistas e chamam a atenção mesmo em meio aos duelos sangrentos de Blade, a costumeira sensação de não compreender o desenrolar das ações poucas vezes ocorre. Alguns quadros prendem a atenção pela fotografia bem trabalhada ou pela sequência extraordinária e dinâmica com que retrata os eventos. Minhas páginas favoritas são as que Samura utiliza vários quadros sequênciais do mesmo tamanho para ilustrar uma cena de combate ágil. No final há splash-pages belas e trabalhadas que encerram o combate.

Uma questão sempre levantada em torno de Blade é a de que os kimonos não raro apresentam estampas chamativas ou de desenhos modernos e Manji carrega uma enorme suástica de duas cores nas costas, o símbolo esse que tornou-se motivo de polêmica quando o título foi publicado na frança (só podia). A história, porém, passa-se aproximadamente nos anos 1782/1783 (segundo ano da Era Tenmei, no meio do Shogunato Tokugawa, de acordo como é mostrado na primeira edição). Bem antes do Partido Nazista adotar o símbolo ancestral do budismo como logomarca. Além do que o símbolo está invertido nas costas de Manji, significando lua. Enfim, nem adianta começar a fazer barulho.

O título encontra-se em pausa na edição 38 aqui no Brasil enquanto a Conrad espera que a edição japonesa ainda em publicação abra uma margem de espaço que permita a publicação mensal por estas bandas. Blade é publicado desde 1994 no japão e desde 1996 nos Estados Unidos, onde já ganhou um prêmio Eisner em 2000, as edições da Conrad são como de costume de acabamento excelente e trazem material extra do próprio Samura além de alguns editoriais explicativos (a questão da suástica é esclarecida logo no primeiro número). Blade agora torna-se o segundo mangá que acompanho com afinco, o outro é Vagabond - nas edições especiais também da Conrad. Indispensável para os apreciadores da arte da espada japonesa, mas sem abdicar do teor pop de cada dia.

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