bunker

Easy TigerMinha relação com os discos de Ryan Adams é como um velho casamento. E isso não é algo ruim. Desde que me dei por gente e comecei a garimpar os discos que me acompanham todo dia Adams está presente. Pode não ser o artista mais completo e original do mundo, mas como ele estava lá desde o começo de tudo e fez aqueles disquinhos belos o casamento foi inevitável.

É dele que escuto ano após ano dezenas de canções novas, participações em outras bandas e histórias de bebederias homéricas. Tempos atrás deixei de lado suas canções por birra, por não conseguir escutá-las sem a imagem pesada de seu autor megalomaníaco até que num vídeo após um show em Cleveland vi o rapaz andando de skate atrás do palco com fãs e rindo, sem a pose de bardo, aparentando estar à vontade consigo mesmo e falando sobre o novo disco sem querer soar como salvador do rock. Parecia sincero, mas apenas escutando o novo disco poderia tirar a prova.

Adams não tem uma carreira incrivelmente bela como a de Josh Rouse (numa comparação um pouco forçada) e comete erros aqui e ali. Suas experimentaçãos deram tanto certo quanto terrivelmente errado. Já foi frontman de uma banda de garagem e fez barulho. Depois voltou pra Jacksonville pra tocar violão com o Cardinals como se fizesse aquilo a vida inteira, sem mostrar um pingo de vontade de empunhar uma guitarra e faer barulho outra vez. Não se trata de versatilidade, não exatamente - mas também não encontrei aqui algo pra definir.  Pode-se dizer Adams só quer fazer as coisas de seu jeito no momento que lhe convém.

No recém-lançado Easy Tiger ecos fortes do tempo de Whiskeytown aparecem. Violão alto, refrão longo e a voz bem dosada de Adams abrem o disco mostrado que dessa vez ele não quer apenas massagear o grande ego. A sensação constante no disco inteiro é de que ideía de ser Ryan Adams finalmente agradou o próprio e não há necessidade de aventurar-se em outros caminhos. Poderia chamar de acomodação, e de fato é, mas tão bem-vinda que eu deixo pra lá. Assim como o último disco do Wilco, Easy Tiger tem um título perfeito que encaixa exatamente com o que se ouve. Um bardo que se aconchegou no seu estúdio favorito, convidou sua velha banda e alguns amigos e disse pra si mesmo que não é preciso ter pressa, se afobar sem motivo e soltar vários discos por ano para se sentir bem. Easy tiger, easy.

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O Aldurin previu (sem muito esforço) a quantidade de rotações que o novo disco do Wilco teria em seus falantes e por consequência nos meus. Agora, meses depois das primeiras semanas de rotações exaustivas me encontro naquele momento em que o disco preenche os espaços essenciais, aqueles momentos em que nenhum outro disco deveria tocar a não ser ele. Depois da euforia o disco acha seu lugar e sempre estará lá pra fazer sua parte. Claro que tem discos que não pertecem a um só lugar ou momento, mas isso é para outro show, como diria Penn.

Sky Blue Sky

Maybe the sun will shine today
The clouds will go away

Assim começa o disco (e essa fase é um mantra, é um slogan, um bordão, duas linhas que assim que começam a tocar no meu player eu só sonsigo cantar junto) . Soa bastante simples se comparado aos últimos do Wilco, a única coisa que se destaca é uma aura soul e 70’s reconfortante. As inovações musicais não são a grande qualidade deste disco. Aqui é melhor prestar atenção ao contexto, desde a capa maravilhosa (que quero num quadro imenso, aliás) até os solos soando como se tivessem sido gravados por um técnico de estúdio louco por valvulados.

As canções vão tocando e tudo que consigo pensar é que se é para acordar com um disco e caminhar com ele até a faculdade, que tenha de ser com discos como esse Sky Blue Sky. Com versos claros entoados pela voz já cansada de Tweedy eu só preciso escutar With the sky blue sky / this ride in time wouldn’t seem so bad to me now / Oh if I didn’t die I should be satisfied I survived / it’s good enough for now para caminhar menos preocupado com o dia que irá acontecer. Não é a genialidade de Yankee Hotel Foxtrot que aparece aqui. É algo parecido com o conforto de um velho livro que você não cansa de ler. São os refrãos singelos e tristes (como sempre) que você não cansa de escutar. Atemporal, talvez. Inerente à minha vida, com certeza.

As canções soam sem começo nem fim em certa parte do disco. E isso é ruim e bom ao mesmo tempo. Você nem repara na aparente falta de unidade e nem na sensação de uma pretensão de faixa interligadas. Apenas acontece. Vai que é melhor assim, você vai apenas escutando os momentos mais brilhantes e não ligando pra aparente falta de originalidade. É um disco pra se usar os botões de ir e voltar no player.

I’m walking all by myself
I’m talking to myself
About you

I was singing this song about you
I was thinking about singin this song about you

E ten o final com On and On and On. Daquelas belas maneiras de terminar um disco o Wilco utiliza a esperançosa, a mais triste. Era de se esperar. Depois de tantas canções sobre cotidiano, sobre as relações perdidas e um refrão romântico ali ou acolá é natural sentir esperança. O dia acaba e eu fico com on and on and on yeah. Daqui pro fim do ano, pro fim dos meus dias ainda vou escutar muitas vezes esse disco (I caught myself thinking once again / I have to try to keep my mind out of this/ Try not to pretend) e vou agradecer pela sua companhia toda vez.

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Favourite Worst Nightmare é um saco na maioria das faixas, rapaz. E olha que eu gosto do primeiro disco até, mas esse é chatinho, letras meio babas e mesmo assim (insira suspiro aqui) vai tocar em festinhas indies, anotaí. Por isso gosto de ser eremita e ir em shows no velho continente, os djs de lá não sofrem da falta de paudurescência que se vê por aqui. Veja bem, não é o fato do disco ser regular que atrapalha, mas o fato de que os imbecis que tocam nas festas da região vão rodar direto, como fazem com outros trocentos discos chatos. Depois me perguntam o que faço num sábado à noite.

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brmc

No excelente Howl o Black Rebel Motorcycle Club deixou a guitarreira distorcida Bloody Valentine de lado em prol de violões blues pesados, gaita, coros e um canto sofrido, áspero e que tal qual uma caminhada pelo deserto não deixava sobreviventes. Howl foi o título mais apropriado para o álbum com as canções que mostrava que não adianta distorção e barulho quando pra derrubar alguém um dedilhado e as linhas certas são o suficiente. Quando a demolidora sensação de vastidão solitária te enche por completo. Era o blues da velha América, aquele que está em todo lugar, como diria o velho Nix.

Uma pena que no novo disco voltaram às guitarras. Em Baby 81 há a velha guitarreira dos primeiros discos, ainda com um pouco do blues de branco melancólico, mas perdeu-se algo. Não tem mais a beleza seca de outrora. Aquele uivo não continuou. Melhor re-escutar as velhas canções.

Black Rebel Motorcycle Club - Restless Sinner

Restless sinner, rest in sin,
He’s got no face to hold him in
He feels his day’s as dark as night,
He’s been waiting with the blind just to find a place to hide his ghost

No open lies, no consequence,
The door’s been closed since he’s walked in
The fight’s been raging so many days,
He’ll greet you with a cross and a sickle as he helps you in.

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Just Like The Rain

13.04.2007 | Discos

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Para começar a me redimir no Dois Discos um texto sobre o disco mais belo de Richard Hawley. E o deserto se abre na sua frente.

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Tem bandas que precisam apenas de um momento pra me conquistar. Um disco inteiro vai depender daquele momento em que serei supreendido e me apaixonarei. Se for uma daquelas surpresas impossíveis de descrever, o disco ganha status de salvador de vidas na hora.

Ef é uma banda da Suécia que ontem me fez o dia. A linha instrumental esparsa da primeira faixa de Give Me Beauty…or Give Me Death! ainda era muito genérica quando largou tudo e tocou o céu no exato momento em que um cello ARREBATADOR veio segurar quebra de ritmo num crescendo que me assustou a ponto de parar no meio da rua por um segundo. Daí eu já estava contente em escutar aquela faixa e provavelmente ficaria com aquela canção na cabeça o dia inteiro.

No entanto veio a bela “Hello Scotland” com seus épicos 12 minutos. Começando timidamente com um piano infantil (ou seja lá qual for o nome desse instrumento) e já apresentando meu amigo cello logo nos primeiros minutos pra deixar aura letárgica que remete a Explosions In The Sky completa. A explosão de guitarras e bateria seca cai lá pelos cinco minutos e o cello choroso vai levando sozinho a melodia. Mais um momento em que me arrepiei. Sem contar que os vocais entram suavemente e vão até o fim da canção acompanhando o cello.

Um disco que se olhado de forma geral é fraco perto de uma beleza irretocável do último do Explosions In The Sky, mas que tem seus momentos e ainda conta com o trunfo de vocais (e do cello!) que poucas bandas instrumentais sabem utilizar. Se abandonarem mais a letargia e investirem nos ótimos vocais, essa banda vai longe.

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Take a Chance

12.03.2007 | Discos

O segundo disco do Magic Numbers sofre do mesmo mal do primeiro: excesso de minutagem. Mas se você é geek como eu, basta enxugar o disco cortando as faixas menos necessárias e você terá algo que será um EP pop perfeito. Aqui embaixo vos ofereço um clipe delícia:

But then you dance, dance, dance,
with the woman that let you
How’s it gonna feel until i catch you,
How you gonna fail where she had in mind
If you continue that of peachy that you now about

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Dia desses estava a tentar explicar pra um amigo como a música ambient tinha umas vertentes muito boas, coisas que passavam longe dos padrões de críticos moderninhos que insistem em colocar o estilo como música de aeroporto. A minha favorita é a mistura de post-rock com ambientações cristalinas, formando quase-canções belas, frágeis e donas de uma peculiaridade assombrosa.

Muitos integrantes de ótimas bandas de post rock encabeçam projetos eletrônicos no estilo One-man-band. O caso do The Album Leaf, projeto de Jimmy LaValle que descobri pelo Last.Fm e devo ter garimpado quase toda a discografia. Gosto de pensar que é um dos meus segredos musicais mais bem guardados. Ou era.

Jimmy LaValle

É o tipo de música que nas primeiras audições vai fugir incrivelmente de ti. No fim do disco vais pensar que nem escutou nada. Isso acontece muito comigo, o caso clássico aqui é do Robert Johnson, que sempre tento escutar e acabo assimilando nada. Coisa quase genética, gafanhoto. Mas é uma questão de tempo. Um dia o disco vai te afogar sem dó. Aí nem vai ter como escrever sobre pra tentar passar a sensação.

O último disco do Jimmy é diferente dos anteriores, Into The Blue Again é de 2006 e tem um padrão de canções mais robusto, fugindo do ambient e entrando num post-rock de levadas e ritmos acelerados com vários instrumentos aparecendo pra encher as canções, linhas eletônicas belas, bem construídas, vocais pop harmônicos, leves e que derrubam de vez os barulhos estranhos do ambient de outrora. Coisa fina demais pra tocar em aeroporto.

Into the Blue Again

http://www.mediafire.com/?rt14zzdh0mj
http://www.demonoid.com/files/details/1510604/15097116/

3 discos + EP
http://www.demonoid.com/files/details/1211467/26419953/

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Sky Blue Sky

06.03.2007 | Discos

O Aldurin veio dar a notíca aqui nos comentários e agora é minha vez de espalhar o novo disco do Wilco, Sky Blue Sky que teve seu leak no dia 05. Pouco atento como sou, nem sabia que estava pra ser lançado e ainda nem terminei o download. Coloco aqui os links, e lembrando que não é um release oficial, possivelmente é um transcode (o que significa qualidade ainda baixa). Mas isso não impede nada.

Wilco - Sky Blue Sky (2007)

wilco-skybluesky-lo-tn.jpg

(bela capa, gafanhoto, bela)

01 - Either Way
02 - You Are My face
03 - Impossible Germany
04 - Sky Blue Sky
05 - Side With The Seeds
06 - Shake It Off
07 - Please Be Patient With Me
08 - Hate It here
09 - Leave Me (Like You Found Me)
10 - Walken
11 - What Light
12 - On And On And On

Rapidshare (256kbps)
Sendspace 01 (192 kbps)
Sendspace 02 (128 kbps)
Torrent (256kbps)

Links devidamente roubados de alguns fóruns e deste post aqui do Aldurin. Dia 15 de março sai o disco oficialmente, aí coloco rips de alta qualidade aqui.

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Venho tentando escrever sobre a primeira temporada de The Wire há uns bons dias. É a melhor série policial desde Sopranos. Só isso é motivo suficiente pra você correr e assistir. Na verdade eu arrisco até dizer que é melhor que Sopranos. Não tem personagem ruim, não tem episódio tapa-buraco, roteiro falho ou piscadela de olhos. É tudo tão denso, bem escrito e ao mesmo tempo engraçado que cada episódio funciona como um filme.

Treze ótimos filmes sobre o cotidiano de homens e mulheres que escolheram por vontade ou não ser policiais, sobre as instituições, o crime organizado, a burocracia, a rebeldia, os horizontes de quem só conhece o lado “errado” da lei, a formação da personalidade de quem se vê na obrigação de defender a sociedade, tudo isso. Nem vou tentar apelar pra aquele papo de verdade crua, corro o rico abissal de começar a falar besteira, se já não falei o suficiente. Comecei a escrever esse texto umas dezenas de vezes, e as linhas acima são que acho o melhor modo de escrever sobre a série.

waits or not

Outra coisa que me impediu de escrever foi que a cada momento que sentava e começava a digitar dava vontade de escutar Tom Waits, dono da canção que toca na abertura da série: Way Down In The Hole, do disco Frank’s Wild Years, um dos quatro que tenho do velho Tom aqui, e um dois dois que nem tinha escutado desde que baixei, há uns bons anos. Estou escutando tanto que viciei, de vez em quando começo a escutar o disco e quando vejo já estou na segunda audição, e ansiando por uma terceira. Ainda não tinha acontecido isso comigo, não com o estranho Waits.

Rusted brandy in a diamond glass
everything is made from dreams
time is made from honey slow and sweet
only the fools know what it means
temptation, temptation, temptation

Cada arranjo estranho, levada confusa, letra incompressível é motivo rodar o disco outra vez. Não quero que nenhum detalhe passe batido. Quero decorar cada refrão, entonação um pouco engraçada, assoviar por aí e alguém me perguntar “ei, que música legal, o que é?” e eu só dar um sorriso. Quero ter esse disco pra poder andar sonolento pela manhã até chegar na faculdade escutando as lamúrias e invenções da voz bizarra desse cara.

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