bunker

Quase sem querer

28.05.2007 | 42

Semana passada fui no estúdio de som da faculdade marcar uma gravações futuras, tinha que aproveitar a mamata de poder gravar qualquer coisa que quisesse enquanto não cobravam nada. O técnico de som é conhecido, gente fina, marca os horários e me chamou pra entrar, estava rolando uma gravação e o material “é do tipo que tu gosta”. Entrei e tinha um cara sentado, de pernas cruzadas com uma velha strato entoando calmamente Lost Unfound, do Tommy Guerrero! (que só reconheci por talvez ter tomado um café bem quente que ativou uns neurônios durante a manhã) Acompanhando por um baixista careca (não entendo esses caras que raspam a cabeça) que puxava precisamente um som grave balanceado estilosa e um baterista que calmamente batucava a percussão aleatória da canção.

Pra um estúdio que costuma gravar vinhetas obscenas de estudantes de turismo e covers do legião aqueles caras tocando uma cremosidade como Guerrero devia ser um afago praquelas paredes fatigadas. Eu tinha que ver o que mais iriam tocar, era um dia histórico, quem eram aqueles caras? Será que me deixariam tocar também? Eram indies escrotos e esnobes? Talvez uma banda desconhecida no limiar do sucesso internédico. Após tocar mais algumas de Guerrero (atestando o seu incrível bom gosto) fizeram uma pausa pra escutar o material gravado e foi a minha deixa para reconhecer o baterista, que meio surpreso me reconheceu também. Me apresentou o trio e fiz os elogios necessários, perguntando logo se eu podia tocar com eles.

“Ah, bora tocar algo agora então” disse o vocalista e peguei a guitarra que mora no estúdio (uma tagima desbotada) todo alegre que finalmente eu poderia tocar com uma banda decente. Conversei um pouco com o ele e resolvemos tocar Cash, pra ver se ficava legal - evidente o extremo bom gosto do rapaz. Em comum sabíamos Hurt, Ring Of Fire e a versão definitiva de Nobody, daquele disco genial que é o Solitary Man. “Eu sei Solitary Man também”, puta que pariu, da onde saiu esse cara?

E começamos, eu na tagima surrada e ele na strato. Sentados começamos a ensaiar Solitary Man (ele fazia a parte do Tom Petty e eu seria o voz de trovão - é, eu gosto de pensar que a minha voz é boa assim). Foi a primeira vez, segunda, terceira até que na quarta alinhamos os instrumentos e a levada alta soou bela. Até o solinho que sempre erro dessa vez acertei. Porra, foi lindo demais. Em seguida tocamos Nobody numa versão mais lenta e pesada, ele ligou um overdrive e saiu tocando os acordes como se fossem riffs. Lindo.

Era hora de tocar com a banda inteira, o baterista recomendou Explosions In The Sky, sabia que eu era louco pra tocar isso. Perguntei o que sabiam tocar e estavam ensaiando direto Welcome, Ghosts do disco novo. Soltei uma risada, “porra, onde vocês se escondem, ninguém toca essas coisas por aqui!”. Repassamos o andamento da música falando mesmo, acertando qual guitarra faria o que, como seriam marcadas as quebradas de ritmo e se dava pra ser fiel com a canção original. Tudo acertado, mandamos gravar e lá vai.

Comecei tocando devagar, sozinho, e a segunda guitarra entra trazendo a bateria seca e inquieta. Repetimos de forma mais rápida a entrada igual a canção original, eu ali concentrado pra não errar e o baterista começa a quebrada seca, “tá bum, tá bum”, é a minha deixa pra começar a segunda linha melódica. Entrelaço com a outra e aquele “tá, bum” vai guiando as duas guitarras num duelo até o fade calmo. Fiquei sozinho denovo tocando a terceira linha, o baixo começa o seu tum dum dum dum e logo atrás dele vem a bateria, as duas guitarras sincronizam a quebrada ruidosa junto com a bateria. É quase apoteótico. Voltamos a repetir essa última parte, sussurando um coral fraco que nem na canção. Mais uma vez uma quebradeira apoteótica. Eu não estava acreditando. A canção começa a entrar no final e é hora de soltar as guitarras numa distorção alta pra deixar a bateria segurar o ritmo sozinha. Senti o baixo alto quase estourando do meu lado. O último fade começa e a canção termina calmamente. Fim. Tomei fôlego, foram cinco minutos tensos. Recompensadores. Wow.

Trocamos telefones após longas conversas, recomendações entusiasmadas e exclamações de “porra, como a gente não tinha se encontrado?!”. Combinei de ensaiar com o vocalista no dia seguinte algumas canções, ver até onde ia a sincronia que aparentemente tínhamos. Ei, pode ser que dessa vez eu finalmente entre numa banda de verdade.

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