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A fantasia em “Margaret on the Guilhotine” parece pensar mais no que se gostaria que acontecesse do que na determinação de ser violento ou mesmo de personificar a violência de modo teatral. O efeito de “Margaret” não será apenas o de encorajar a resignação melancólica?

“Talvez, mas eu também acredito firmemente na ação. Existe um grande senso de rebelião de porta de casa, a coisa de bater o pé. Acima de tudo, acho que lidar com manipulação de pessoas é muito cansativo. Você envelhece rápido quando tenta vencer todas as discussões da sua vida. Politicamente, me sinto esgotado. Sinto que não há mais manifestações, mais abaixo-assinados para serem endossados. Acho que essas coisas, bem como reuniões de grupos e creches, são muito chatas. São uma perda de tempo. Tenho uma sensação de apatia.”

Interessante quando você fala em “bater o pé”, porque essa fantasia de tirar Mrs Thatcher, como se isso fosse resolver tudo, como se o “mal” neste país não fosse muito mais intelectual e enraizado - bom, isso soa meio infantil e petulante.

“Estou totalmente ciente disso, acredite. E tem algo importante aí. A música é boba, mas também é bem pesada e muio corajosa. E eu me encosto na cadeira e sorrio. Você com certeza percebe que esses elementos sérios colocam a manifestação direta, a canção de protesto tipo “Maggie Maggie Maggie Out Out Out”, no seu lugar, fazendo-a parecere banal e um pouquinho acomodada.”

O problema com as canções de protesto é que o pop sempre foi imediato, espontâneo e pueril. Ele não tem paciência para se arrastar por subcomitês e gazer lobby ou reivindicações de maneira ordeira, através dos canais competentes. O pop não tem programa, não negocia, ele quer o mundo e ele quer agora. E agrada muito mais ouvir que seu inimigo está sendo massacrado. Mesmo que seja só uma fantasia…

“É mesmo? Obviamente você não me escutou. Eu acho possível. Os tempos estão bem ruins. As coisas estão muito incertas. Você não acredita em mim? Tem muito sentimento organizado na Inglaterra neste momento”.

Nesse pedaço da entrevista que Simon Reynolds fez com Morrissey sobre seu primeiro disco solo, Viva Hate, em março de 1988 para a Melody Maker (reproduzida do livro Beijar o Céu, da Conrad - dísponível aqui no original em duas partes) tem algo que parece ter sido perdido há anos nas entrevistas de ídolos pop, principalmente as entrevistas brasileiras. Há um confronto entre entrevistador e entrevistado que apóia-se não somente na música mas também em política e até mesmo na função do pop.

Repare que Morrissey recebe as críticas diretas com respeito e deboche característico, sabendo que a entrevista é um jogo de palavras e que seu adversário oferece sim perigo à sua imagem, não ficando apenas nas cutucadas e observações que tentem irritar o entrevistado na esperança de arrancar uma declaração polêmica. Acho que é isso, nessa entrevista há perigo se você não souber lidar com as perguntas e análises. As entrevistas atuais carecem muito disso.

Geralmente pulo as páginas de entrevistas enfadonhas em revistas como a Rolling Stone, que dispõe de bastante espaço gráfico que poderia ser preenchido por entrevistas boas e realmente contundentes mas fica no marasmo e na auto-indulgência. Antigamente na Revista da MTV (antes dela virar “privatizada”) as entrevistas eram chamadas de “entrevistões” e ocupavam várias páginas tentando mostrar que entrevista boa tem que ser longa e analisar vários aspectos (mesmo que enfadonhos) do artista. Não precisam, não é questão de tamanho ou abrangência, falta mesmo é coragem e inteligência.

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