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Manji

Há um bom tempo namorava as edições nacionais de Mugen no Juunin, conhecida por estas bandas como Blade - a Lâmina do Imortal, lançadas pelada Conrad. Na época do lançamento em bancas deixei passar e só quando o mangá já estava bastante adiantando que fui saber qual era a (alta) qualidade do material. Recentemente tive a oportunidade de comprar 34 das 38 edições lançadas numa tacada só e passar um bom punhado de dias lendo a saga de Manji, o Hyakunin-Guiri (traduzido literalmente como “assassino de cem pessoas”).

Manji é um ronin que assassinou seu superior quando descobriu que cometeu mortes não porque as pessoas não pagavam os impostos, mas sim por não conseguirem pagar as altas quantias exigidas pelo seu suserano que desviava dinheiro. Durante sua fuga assassinou 99 samurais que lhe perseguiram, ganhando então o nome de Hyakunin-Guiri. Tornou-se imortal quando uma sarcedotisa chamada Yaobikuni cuidou de seu corpo debilitado pela batalha come “Kessen-Chu”, vermes simpáticos que curam qualquer ferida em seu corpo instantaneamente. Dessa forma Manji é um um ronin amaldiçoado ao não-morrer e com o peso das mortes cometidas para carregar - morrer para ele será um alívio agora e faz um trato com a Yaobikuni com a condição de que se matar mil pessoas más os vermes serão retirados de seu corpo.

Apesar de plot soar um tanto quanto violento e de fato o mangá ser tão bom em grande parte por conta dos duelos, o roteirista e ilustrador Hiroaki Samura não conta apenas uma história de ronins e samurais de forma tradicional no estilo “encontrar o mais forte e matá-lo em combate sangrento”. Além dos duelos a trama caminha com diálogos bem construídos que questionam o período político e cultural vivido no Japão e subvertem o tão precioso código de conduta dos samurais, o Bushido. Samura inclui vários elementos estranhos a um japão feudal na história, como personagens de nome Jony Uofutsu e Kuroi Sabato, respectivamente Jonny Rotten e Black Sabbath e alguns personagens falam girías e de forma bastante atual enquanto outros são tradicionalmente samurais feudais. Com esse choque da cultura pop moderna com o tradicional que ele transforma o mangá em algo mais do que apenas uma história de violência.

Os traços de lápis (ou ora com páginas finalizadas em nanquim) de Samura são rápidos e detalhistas e chamam a atenção mesmo em meio aos duelos sangrentos de Blade, a costumeira sensação de não compreender o desenrolar das ações poucas vezes ocorre. Alguns quadros prendem a atenção pela fotografia bem trabalhada ou pela sequência extraordinária e dinâmica com que retrata os eventos. Minhas páginas favoritas são as que Samura utiliza vários quadros sequênciais do mesmo tamanho para ilustrar uma cena de combate ágil. No final há splash-pages belas e trabalhadas que encerram o combate.

Uma questão sempre levantada em torno de Blade é a de que os kimonos não raro apresentam estampas chamativas ou de desenhos modernos e Manji carrega uma enorme suástica de duas cores nas costas, o símbolo esse que tornou-se motivo de polêmica quando o título foi publicado na frança (só podia). A história, porém, passa-se aproximadamente nos anos 1782/1783 (segundo ano da Era Tenmei, no meio do Shogunato Tokugawa, de acordo como é mostrado na primeira edição). Bem antes do Partido Nazista adotar o símbolo ancestral do budismo como logomarca. Além do que o símbolo está invertido nas costas de Manji, significando lua. Enfim, nem adianta começar a fazer barulho.

O título encontra-se em pausa na edição 38 aqui no Brasil enquanto a Conrad espera que a edição japonesa ainda em publicação abra uma margem de espaço que permita a publicação mensal por estas bandas. Blade é publicado desde 1994 no japão e desde 1996 nos Estados Unidos, onde já ganhou um prêmio Eisner em 2000, as edições da Conrad são como de costume de acabamento excelente e trazem material extra do próprio Samura além de alguns editoriais explicativos (a questão da suástica é esclarecida logo no primeiro número). Blade agora torna-se o segundo mangá que acompanho com afinco, o outro é Vagabond - nas edições especiais também da Conrad. Indispensável para os apreciadores da arte da espada japonesa, mas sem abdicar do teor pop de cada dia.

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