bunker

Venho tentando escrever sobre a primeira temporada de The Wire há uns bons dias. É a melhor série policial desde Sopranos. Só isso é motivo suficiente pra você correr e assistir. Na verdade eu arrisco até dizer que é melhor que Sopranos. Não tem personagem ruim, não tem episódio tapa-buraco, roteiro falho ou piscadela de olhos. É tudo tão denso, bem escrito e ao mesmo tempo engraçado que cada episódio funciona como um filme.

Treze ótimos filmes sobre o cotidiano de homens e mulheres que escolheram por vontade ou não ser policiais, sobre as instituições, o crime organizado, a burocracia, a rebeldia, os horizontes de quem só conhece o lado “errado” da lei, a formação da personalidade de quem se vê na obrigação de defender a sociedade, tudo isso. Nem vou tentar apelar pra aquele papo de verdade crua, corro o rico abissal de começar a falar besteira, se já não falei o suficiente. Comecei a escrever esse texto umas dezenas de vezes, e as linhas acima são que acho o melhor modo de escrever sobre a série.

waits or not

Outra coisa que me impediu de escrever foi que a cada momento que sentava e começava a digitar dava vontade de escutar Tom Waits, dono da canção que toca na abertura da série: Way Down In The Hole, do disco Frank’s Wild Years, um dos quatro que tenho do velho Tom aqui, e um dois dois que nem tinha escutado desde que baixei, há uns bons anos. Estou escutando tanto que viciei, de vez em quando começo a escutar o disco e quando vejo já estou na segunda audição, e ansiando por uma terceira. Ainda não tinha acontecido isso comigo, não com o estranho Waits.

Rusted brandy in a diamond glass
everything is made from dreams
time is made from honey slow and sweet
only the fools know what it means
temptation, temptation, temptation

Cada arranjo estranho, levada confusa, letra incompressível é motivo rodar o disco outra vez. Não quero que nenhum detalhe passe batido. Quero decorar cada refrão, entonação um pouco engraçada, assoviar por aí e alguém me perguntar “ei, que música legal, o que é?” e eu só dar um sorriso. Quero ter esse disco pra poder andar sonolento pela manhã até chegar na faculdade escutando as lamúrias e invenções da voz bizarra desse cara.

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