Valência, 2006
27.09.2006 | 42

Fui parar na Espanha alguns meses atrás durante minha viagem para conhecer algumas faculdades européias para futuros cursos e pós, na verdade fui só para conhecer a Supinfocom mesmo no entanto terminei alongando o tour para mais algumas. Depois do trabalho feito, recebi o convite de amigos para ficar nos arredores de Valência. Restando ainda quase uma semana antes de voltar já tinha andado bastante e o convite era a oportunidade de relaxar em um lugar bonito e barato.
No mp3 player que levei já antecipando o perÃodo de seca em outro paÃs ia entre um punhado de discos o recém-baixado SubtÃtulo, último álbum de Josh Rouse, um dois compositores mais admirados por este escriba. Acredito que quem já lê este blog há tempos percebeu a importância dele na minha discografia pessoal. Poderia ter sido Dylan ou Lennon mas ele chegou primeiro.
O que eu não sabia é que Rouse estava residindo em Altea, nos arredores de Valência, na pressa de arrumar as malas não li release algum sobre o disco, só fui saber quando a Noiva me passou por email a notÃcia, sabendo do efeito que isso causaria neste turista acidental. Porra, estava na mesma cidade que Rouse, um dos caras que mais escutei a música na minha vida! Mais um pouco de pesquisa stalker no google e nada de achar a agenda recente do homem (achei algumas datas em abril, o que poderia ser bom) para saber se eu realmente tinha a oportunidade de esbarrar com ele por aÃ. Decidi ir em alguns bares e ver no que dava, no mÃnimo escutaria alguma história interessante.
Nem precisou muito, antes de entrar no primeiro bar recebi a ligação do amigo que estava me hospedando perguntando se queria ir ver alguns shows a noite num lugar afastado da cidade. “rave?” - “Que nada, é um negócio de universitários, sabe como é” - “Bacana, por acaso conhece Josh Rouse?” - “Quem? Acho que não, onde tu estás, vou te pegar, são 40 minutos pra chegar lá”.
No começo da noite chegamos no lugar, como se esperava cheio de universitários europeus descolados e com dois palcos montados no fundo. Minhas esperanças ainda estavam grandes, era impossÃvel não encontrar alguma informação sobre Rouse no meio desse povo. Depois de duas apresentações de locais, estava numa roda conhecendo o povo e soltei a pergunta da noite -”Does anybody knows josh rouse? I’ve heard that he lives here in Valencia” (meu portunhol é terrÃvel). Rá, era lenda local e quase todos sabiam mais ou menos sobre onde ele morava, mas definitivamente não era no centro da cidade, era em Altea mesmo. Peguei as indicações necessárias e no outro dia pela o mais cedo possÃvel - quase duas da tarde -  comecei a caminhar pela cidade atrás dos pontos de referência que lembrava.
Foi numa padaria pequena que vi de relance Rouse apressadamente sair e atender o celular, carregando um pacote nas mãos. Olhei com atenção: de cabelo baixo, pele queimada pelo sol, bermuda e chinelos, poderia ser qualquer um. Segui-o. Na esquina pude confirmar que era o baixinho em pessoa.
“E agora? vou parecer uma attention-whore se chegar nele cheio de sorrisos e dizer alguma coisa” - E foi exatamente o que fiz. Em português. Ele me olhou com atenção e escutou tudo que disse, quando comecei a gaguejar percebendo a merda que estava cometendo ao falar em um idioma desconhecido para um gringo ele perguntou se eu hablava español e se estava tudo bem, ao perceber que estava tudo ok e que se tratava de um fã atrapalhado apontou para um carro e fomos caminhando até ele. Não sei o que foi mais estranho, a minha travada linguÃstica ou a simpaticidade do homem.
No caminho consegui dizer que o reconhecia e que na verdade estava tietando como muitos já fizeram e antecipadamente pedia desculpas pelo incômodo, mas se pudesse dizer algumas palavras estaria muito satisfeito com o encontro. Mais original impossÃvel, ham.
Ele abriu a porta do carro, colocou o pacote no banco do passageiro, fechou a porta e encontou-se nela. Disse que estava tudo bem, que eu era no mÃnimo engraçado e lhe restava um bom pedaço de tempo antes de fazer alguma coisa, poderÃamos conversar durante uma caminhada sem problemas, desde que fosse num idioma conhecido, era sempre bom conversar com estrangeiros sobre música. Vai ver ele estava num bom humor transcedental nesse dia.
E assim descemos um punhado de ruelas de Valência. Não conseguia parar de falar, após dizer o tudo que necessitava dizer a um dos compositores que mais aprecio, começamos a conversa de fato. Sobre música, espanha, copa do mundo e claro, música denovo. Depois dos turbulentos minutos iniciais, você percebe que conversar com alguém que se admira é mais simples do que parece, claro que se ele gostar de tudo que você gosta é mais fácil.
Fazendo o caminho de volta, trocamos informações pessoais e dados. Na verdade ganhei um convite para visitá-lo mais tarde, era seu último dia na cidade antes de fazer alguns shows em Bruxelas e seria legal ter alguém para conversar, relaxar e escutar alguns discos, poucos conhecidos costumavam passar pela cidade, não estava exatamente na rota de tours mundiais. Sem conseguir tirar o sorriso do rosto, vi o homem partir em seu carro pequeno. Havia tido uma incrÃvel conversa com o cara que cantou tantas vezes em meus castigados falantes. Não era o tipo de coisa que acontece todo dia.
Peguei emprestado o um carro e rumei para a casa em Altea. Passamos horas escutando salsa, encontrando gostos musicais semelhantes e trocando figurinhas sobre nossos paÃses, indaguie tudo que foi possÃel sobre gravar discos, gravadoras, shows e etc. Ele de Nashville, eu do meio da Amazônia. Conversamos (porcamente) em espanhol, inglês e brincamos com sotaques. Teve uma hora que pensei no tÃpico momento de “conhecer o Ãdolo e identificar-se de forma mágica com ele”, disse isso a Rouse e obtive a resposta “não acredito que seja Ãdolo de ninguém, pessoas como você me vêem de uma forma diferente, meio estranha a pricÃnpio pra mim, sem querer usar frase feita, eu só toco canções”. Claro, canções perfeitas.
Não lembro que horas saà de sua casa caminhando meio bêbado e com uma satisfação incrÃvel batendo no peito. Poderia transcrever a conversa inteira aqui, mas tem coisas que prefiro guardar por motivos óbvios. Pode acabar degastando se eu escrever, enquanto permanecer comigo continua de uma forma super-romântica intocado. Da viagem restou apenas uma pasta cheia de folhetos de formulários, alguns discos e a lembrança do acontecimento mais improvável dos últimos anos na minha vida. Logo depois fui saber que ele foi parar nos arredores de Valencia por conta de seu divórcio conturbado, precisou de uma cidadezinha para melhorar a situação.
Ansiosamente espero a oportunidade de retornar ao Velho Continente, ir num show dele, assistir calmamente, talvez ganhar um aceno, um sorriso ou um gesto de reconhecimento.
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If you walk with Jesus he's gonna save your soul, you gotta keep the devil way down in the hole.
