bunker

Discos Virtuais

29.08.2006 | 42

Não tenho muitos cds. Cresci junto com a Internet e os preços altos dos discos me faziam baixar cada vez mais discos. Nunca um moleque de 16 anos quer gastar o seu precioso dinheirinho num cd daquela banda desconhecida todo mês, era mais importante poder pagar um lanche para a garota afim. Enquanto deixava de comprar discos em lojas começaram a surgir serviços mais especializados de troca de arquivos on-line, feitos por amantes de música que queriam a fidelidade ao original ao trocar seus arquivos. Atualmente existem comunidades que são tão rigorosas nas especificações dos arquivos que por ela trafegam que chegam a lembrar aqueles velhos sebos onde aquele senhor fica te olhando de olho grosso a cada disco que você tira com força da prateleira.

Quando você baixa um disco nessas comunidades écomum vir a capa, encarte (e variações do mesmo em diferentes lançamentos) arquivinho de checagem de integridade das faixas, log de extração do cd (para os mais xiitas comprovarem que os arquivos vieram de um cd original) e talvez uma resenha sobre a banda com um punhado de links para você inteirar-se com o disco por completo. É quase o mesmo efeito de comprar o disco na loja com a recomendação daquele seu amigo que sempre está por dentro.

E os anos passaram, as mp3 começaram a ocupar um bom espaço no hd. Minha coleção estava grande, uma prateleira virtual organizada friamente (digo isso pois não há escapatória ao guardar discos no computador) em ordem alfabética e com algumas pasta de classificação bem abrangentes (rock and roll, brazil, soundtracks, classical) para facilitar na hora de trocar os discos pela rede com outros usuários. Olhei para minhas estantes no mundo real e os livros não disputavam lugar com os poucos cds que insistiam em ocupar espaço, era clara a situação: a música que tanto adoro reside em num disco rígido ao invés das românticas prateleiras ostensivas organizadas segundo alguma lógica coerente apenas para o dono das mesmas. Alguns discos que adoro nem sequer pude olhar o encarte, ler as dedicatórias e saber quem tocou aquela guitarra extra na faixa tal.

Comecei a lembrar das primeiras vezes que escutei alguma banda genial que tomou meses nos meus falantes. Geralmente estava navegando e colocava algo no bom e velho Winamp para tocar e aos poucos minha atenção era desviada para o som, me chamando. As melhores bandas foram assim e não do modo antigo com aparelho de som, poltrona e livro. Foi lendo blogs, checando emails, perturbando o Google com pesquisas inúteis (mas muito importantes) que o som em chamou atenção.

Não tive o romantismo de sentar num sofá com ansiedade e degustar o disco novo que passei horas na fila pra pegar uma cópia. Enfrentei filas virtuais e taxa de download lenta para enfim poder escutar as faixas comentando minuto a minuto pelo Messenger com um amigo como aquele disco é  foda, ou como a banda escorregou feio.

Era inevitável pensar os chavões “sou um exemplar da geração Internet, e sem ela não conheceria metade das bandas que conheço hoje, segui o caminho novo de descobrimento musical sem o suporte material, apenas arquivos e bytes trafegados”. Era tão óbvio como aquela reportagem da Veja que anunciava os novos adolescentes que ao baixar mp3 eram nada mais que criminosos virtuais.

Suspirei bem fundo. No entanto logo lembrei que as sensações continuaram intactas: chorei profundamente ao sentir a angústia de Elliot Smith, aprendi que tudo pode ser como você quiser com Beatles, que de vez em quando precisamos gritar com tanta força que parece não existir outra opção para viver com Nirvana, que a alegria reside em pouco com Teenage Fanclub e que acima de tudo precisamos nos sentir vivos com as guitarras ensandecidas do Radiohead. Tudo estava ali, com aquelas centenas de bandas e compositores, aquelas pessoas ainda faziam música que me atingia bem no fundo. O jeito como essa música chegou até mim é apenas um detalhe.

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